"Jovem, você que completa 18 anos este ano, aliste-se..."
Nunca liguei muito pra essa propaganda. Achava soldados legais e tal, mas nunca imaginava que um dia, o tal "jovem" seria eu. E, quando menos se esperava, lá estava esta pobre figura que vos escreve na fila pra inscrição pro serviço militar.
Se quando você leu a primeira frase lembrou disto aqui, não te culpo. Se eles queriam convencer alguém que não queria se alistar de que a vida no exército é empolgante e interessante, falhavam feio. Tudo parecia obrigação, parecia que a qualquer instante você podia levar um tiro no peito e morrer sangrando na calçada. Isso ou ficar no posto de saúde cuidando de bebê cagão. Talvez o exército tenha realmente percebido que aquele formato de propaganda militar, com a galera disparando foguete e se arrastando na lama, não iria atrair muita gente, e tentaram fazer com que o exército assumisse uma cara mais jovem, pra facilitar a comunicação com o público-alvo. Isso obteve resultados... tristes.
E, conforme o tempo foi passando, aumentou terrivelmente meu medo de ser realmente convocado.
Lógico, na hora eu não pensava que, com este físico invejável e uma miopia campeã, eles iriam querer mais é que eu fosse embora logo pra crise de risos não atrapalhar o serviço no quartel. Enquanto pegava o papel que dizia o dia que eu deveria me apresentar, não conseguia tirar da cabeça a pior possibilidade e como minha vida se tornaria uma merda ainda pior do que já é.
Foi assim que, em pleno dia de férias, fui parar no Batalhão de Guarda Presidencial, às 7 da manhã. O frio, claro, estava absurdo. O sono fazia questão de avisar que estava presente. Mais ou menos como quando você está com tanto sono que tudo fica distante, esquisito, engraçado. A situação só não era pior porque eu sabia que aquelas outras centenas de caras estavam no mesmo barco.
No dia, seriam feitos exames físicos pra avaliar sua condição e ver se aguentaria as pedreiras da vida militar sem quebrar em vários pedaços. Vários tenentes, ou capitães, ou sei lá, tiravam sarro de cada pobre garoto que passava por eles ("Silva Silva? P**a sobrenome de pobre, cara!", "Quem não entrar na fila o mais rápido possível, vai ser jogado na piscina", entre outros bem piores), pessoas tremiam de frio e de nervoso, nomes eram chamados.
"Lucas Martins!", anunciou a voz. Nervosamente, entrei em uma fila com outros caras. Nessa hora pensei em tudo que podia fazer pra me recusarem. Fingir que tinha asma, que era fraco, que era burro, mostrar claramente que não queria estar lá. Incrível como, quando você está morrendo, sua vida inteira pode passar em sua mente em uma fração de segundo. Não é exatamente por isso que passei, mas quase. Putz, que galinha.
Fomos pra uma sala onde estavam sendo feitos... exames de vista.
"Lê a linha 11." Olhei pro papel na parede, mas as letras naquela linha pareciam um borrão. Não consegui. O cara olhou pra mim, pegou a minha ficha e disse "OK, dispensado."
Fim.

