Qual o problema? Nenhum, aparentemente. O mundo gira, as formigas trabalham, as estrelas realizam reações nucleares e pessoas faltam à academia. Mas essas pessoas não têm o pai que eu tenho. O cara simplesmente surtou, disse que sou um irresponsável e deixaria de pagar a mensalidade. O único jeito de evitar isso seria indo no dia seguinte.
O dia seguinte estava ainda mais frio. E escuro. E chovendo.
Não tenho roupas pra usar na academia em dias frios. Pode chamar de falta de compromisso ou vagabundagem, mas nunca me preocupei em comprar algo próprio para isso. Como resultado, pus minha costumeira bermuda, uma camisa de manga curta normalzinha e um agasalho por cima para tentar disfarçar o frio, mas é claro que falhei miseravelmente e sofri instantaneamente um choque térmico ao receber o vento. Meu fiel guarda-chuva mal conseguia enfrentar as rajadas de ar frio e a chuva que caía sem controle, a lama subia pelas calçadas, galhos eram arrancados de árvores e o céu estava de um cinza ameaçador. Grande.
De algum modo, consegui chegar vivo no meu destino. Claro que estava molhado até os ossos, mas esperava que o esforço logo me fizesse esquecer dos problemas, até mesmo do meu iPod novinho todo molhado. Tá, esse não deu pra esquecer, pelo menos não quebrou nada. O problema é que a academia estava fria pra dedéu e o instrutor ainda havia ligado os ventiladores com aqueles umidificadores. Feladamãe, passar o dia todo malhando é uma coisa, mas chegar e quase congelar é outra.
Sabe, uma das coisas que mais gosto quando vou malhar é sentir cada osso estalando na hora do alongamento. Você se sente motivado, cheio de energia, pronto pra levantar peso. Melhor ainda é nos primeiros exercícios, você estala e estica todo. Fala sério, isso é muito bom. Menos quando se estala além do limite, sendo que o frio te deixa estranhamente rígido e uma dor toma conta de pontos-chave, como panturrilha e pulso.
Salto no tempo. Peso caindo no pé, pequena discussão com um cara da minha altura mas o triplo da largura, chuva ficando cada vez mais forte lá fora, chave do armário perdida.
Depois de achar a chave e conseguir recuperar o celular e guarda-chuva, olho desanimado pela janela e noto a cortina branca de água que bloqueia minha vista. Não, eu não tenho catarata. Abro meu fiel parceiro e saio, pronto pro que der e vier.
CARALH*, FDP! Um carro passa em uma poça e joga água fria, barrenta e provavelmente cheia de leptospirose em cima de mim. Galões e galões de água desabam das nuvens impiedosamente, uma quantidade que só não assustaria o grande herói Leônidas Fontes. A curta caminhada de 500 metros até meu prédio tomou dimensões de um triatlo, como se eu estivesse fazendo a corrida e natação ao mesmo tempo.
Ao passar em frente à portaria, notei que o porteiro mal conseguiu conter o sorriso. Acho que nunca me molhei tanto, nem quando tomo banho ou entro em uma piscina. Fala sério, cheguei em casa em um estado deplorável, com a roupa encharcada totalmente grudada ao corpo, o cabelo chapado de tanta água e poças dentro dos tênis. Meu pai ainda teve a coragem de perguntar como tinha sido, ao que respondi "Tá frio lá fora". Espero que ele tenha entendido a mensagem.
Tudo isso serviu para me ensinar uma lição:
Espero ter ensinado algo de valor hoje.