sábado, 8 de agosto de 2009

Peixes

Quem mora em cidade grande, média ou pequena e tem como única opção de moradia um apartamento sabe como é difícil ter animais de estimação. O espaço limitado e os vizinhos chatos tornam a criação de bichos muito complicada. Vão-se os gatos e sua necessidade de liberdade, vão-se os cachorros e sua necessidade de espaço (ou não, depende de muitas variáveis. Eles, aliás, receberão um post em breve), vão-se pássaros e sua necessidade de espaço e barulho. Lógico que isso depende muito do animal, do dono e das condições disponíveis, mas o fato é que é difícil ter um animal em um espaço fechado de 150m² ou até menos.
Sempre tive problemas com isso. Eu era uma criança meio fechada e sem muito contato com outras pessoas, ficando enfurnado no quarto a maior parte do tempo. Nem vou perder muito tempo dizendo isso mais uma vez, leia meus posts antigos para entender. De qualquer forma, minha mãe um belo dia achou legal comprar um peixe pequeno, que não fosse difícil de cuidar e pudesse habitar espaços pequenos. Veio meu primeiro peixe betta.
Bettas, pra quem não sabe, são aqueles peixes pequenos multicoloridos que são conhecidos por viverem em aquários ridiculamente pequenos sem filtração nem nada, e pelos machos da espécie serem extremamente agressivos quando confrontam peixes de certas espécies, incluindo sua própria.

Eu tinha seis anos e uma péssima memória. Não duvido que ele tenha vivido menos que uma semana. Algum tempo depois veio o segundo. Ele já durou mais tempo, mas mesmo assim eu lembrava de dar comida pro coitado de vez em nunca. Depois, ganhei de aniversário de um amigo da minha mãe um hiper-aquário com três divisórias e um betta em cada uma! Cadê esse cara hoje? Bem que eu queria uma TV nova...
Alguns meses depois eu resolvi que ter peixes isolados era muito chato e ganhei duas Bettas fêmeas. Bem isso foi o que disse o vendedor. As fêmeas de betta não são agressivas, podendo viver tranquilamente com outras fêmeas, mas não foi isso que vi: uma delas perseguia a outra incessantemente pelo aquário, dias e dias, até que ambas morressem, provavelmente de fatiga. Droga, primeira vez que os peixes morriam e a culpa não era minha. :´(

Muito tempo depois, eu com 15 anos, comprei o primeiro betta em muitos anos, junto de outro pro meu irmão, mesmo que na verdade ambos fossem meus porque eu que acabaria cuidando deles. Surpreendentemente, os dois viveram mais de um ano! O peixe do meu irmão acabou mostrando sinais de hidropisia, uma doença que faz com que os órgãos internos do pobre animal acumulem muita água e ele inche feito um balão. Ele acabou morrendo porque ficou pesado demais pra conseguir subir até a superfície para comer e até respirar¹. O problema é que essa doença tem causas desconhecidas e passa com muita facilidade para outros peixes, e como resultado, o meu acabou ficando do mesmo jeito. Cheguei a gastar cem reais em um remédio que não fez droga nenhuma e ele morreu do mesmo jeito.

Chegando ao final da história, minha mãe comprou mais um betta há duas semanas pro meu irmão. Era um peixe meio feinho, pequeno e amarelo. Só que dessa vez o plano foi diferente: eles devem ter achado que seria legal matar o peixe de uma maneira estúpida, lenta e sofrida, então encheram o fundo do aquário de areia genérica sem marca e comprada em qualquer loja. O coitado morreu em quatro dias, mas esperaram até ele sofrer convulsões intermináveis para me avisar que tinha algo de errado. Dorga.

Bettas são legais, porque são muito fodas, são tiops o Stallone do mundo dos peixes: são pequenos, mas extremamente violentos. Na natureza são meio sem cor para se camuflarem bem, e caçam impiedosamente suas vítimas. São tão competitivos que podem chegar a comer os próprios alevinos machos para diminuir a concorrência. Foda².
Os bettas à venda por aí são peixes geneticamente selecionados para serem grandes e coloridos, ou seja, são máquinas de destruição geneticamente selecionadas. Se alguma espécie vai dominar o mundo depois que os humanos forem extintos, você já sabe um forte candidato.
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Esse é o início de uma série de posts sobre animais. Sim, I'm back... nem que seja por três ou quatro posts. Aguardem!

domingo, 10 de maio de 2009

Vizinhança

Todo mundo tem vizinhos. Duh, isso é óbvio. Não importa se você mora em casa, apartamento, barracão ou seja lá o que for, sempre haverá alguém que mora perto de você.
E os vizinhos são uma espécie estranha, sempre digna de comentários. É estranho, porque são pessoas sobre as quais você sabe a rotina, jeito de falar, hábitos mais comuns, relacionamentos e até coisas que gostam e não gostam, mas ao mesmo tempo você mal as conhece! Quem mora em prédio e tem as famosas janelinhas de banheiro sabe do que estou falando, mas isso é algo observável também em casas geminadas.

Eu tenho três vizinhos: o da esquerda (de porta), o da direita (de banheiro) e o de cima (de elevador), porque moro no primeiro andar e não sei se a casinha do porteiro no térreo pode ser considerada como apartamento. Todos são pessoas extremamente bizonhas, mas é como dizem os mais velhos: de perto, ninguém é normal. Mas bem que vizinhos poderiam ser menos anormais, pelo nosso bem.
Meus vizinhos são a perfeita demonstração dos tipos mais comuns de vizinho. Vamos a eles.

Vizinho da esquerda, de porta: A pessoa que mora à minha esquerda é uma velha chata e incrivelmente gorda, que mora com seu filho de uns 25 anos. Ela é imensamente implicante conosco, algo que simplesmente não suporto. Certa vez, alguém do prédio comprou um filhote de cachorro que ficava latindo e gemendo o dia inteiro, talvez porque não estivesse acostumado com o novo ambiente. Pois a maluca achou que o cachorro era nosso. Sério, inexplicável, visto que os latidos, apesar de incomodarem, claramente vinham de algum apartamento mais distante. Meu peixinho também não fazia tanto barulho, a não ser por ocasionais "blubs" quando ele dava uns pulinhos.
Outra vez, quando reformava o apartamento, o pedreiro dela deu um jeito de arrancar o cabo de antena do nosso apartamento, fato que teve como resultado nós ficarmos sem TV aberta nem a cabo por quase uma semana, visto que ela não fez o menor esforço para consertar aquilo.
O filho dela já é mais legal. Acabou de se formar em Direito, tem índole boa, é engraçado e simpático. Pena que seja apaixonado por seu Jaguar 1985 e todo sábado de manhã fique afundando o pé no acelerador para que o motor "não estrague", fazendo um barulho escandaloso, ainda mais considerando que o estacionamento seja entre dois prédios bem próximos.
Mais um detalhe irritante é que eles devem ser muito populares, porque quase toda noite tem gente visitando os dois. Não teria problema se eles não fossem barulhentos, ficassem até altas horas nem fizessem aquela merda de culto religioso que todo mundo fica gritando e batendo o pé de madrugada. Nada contra rituais religiosos, mas tudo contra rituais religiosos que atrapalhem meu sono.

Vizinho da direita, de banheiro: Os vizinhos à minha direita também são velhos, mas já bem idosos e, espera-se, pacatos. Eles moram com um casal de filhos lá perto de seus 30 anos, o parceiro de um deles (que não sei qual é) e um netinho de uns 5. Algo que devo esclarecer aqui: como são vizinhos de banheiro, quase nunca os vi e apenas escuto coisas, o que torna tudo ainda mais engraçado.
O velho, pelo que deduzi, é muito esquecido, e não só de perder coisas ou algo mais normal. Várias vezes ouço a velha gritando "Fulano, limpou a bunda no banheiro?", ao que ele pode responder tanto "Claro que sim, porra!" ou "Foda-se minha bunda!". Ai, esses velhos de hoje. Pra piorar, algum deles é meio surdo, o que faz com que a maior parte da comunicação naquele apartamento seja por meio de gritos, especialmente audíveis quando você quer estudar ou dormir. Isso também faz com que a TV também seja ridiculamente alta, de modo que eu posso escutar o Domingão do Faustão direitinho quando estou no quarto.
A velhinha já é mais calma. Ela virou tipo uma babá do marido, então parece sempre preocupada e dedicada à tarefa. Ela sim é uma pessoa exemplar.
Os dois filhos são fumantes, e isso já resume bem o principal problema: pra não incomodar os velhos, geralmente eles fumam no banheiro para o cheiro não infestar o local onde eles moram. Aparentemente dá resultado, porque toda a fumaça e fedor vêm para onde eu moro. Certas tardes fica quase insuportável, tamanho o nível de poluição do ar. O filho que é casado ainda costuma brigar com o parceiro no maior volume possível. Repito: não sei se o casado é o homem ou a mulher, com um homem ou uma mulher. Só pelo que escuto fica impossível diferenciar quem está falando.
O garoto é uma criança normal. Dá uns gritos, conversa, toma banho, grita "Mãe, cabei!"...

Vizinho de cima, de elevador: No apartamento de cima, no segundo andar, mora uma família aparentemente normal: o marido, a esposa e a filha de 10 anos. Pena que o homem bata na mulher frequentemente; a mulher seja extremamente antipática, mandona e mal-educada; e a filha seja barulhenta.
Explico: o homem vez ou outra chega bêbado, ou até mesmo sóbrio, mas bate nela na maior parte das vezes que discutem.
A mulher... bem, seilá. Ela é apenas antipática, mandona e mal-educada. Aliás, é normal que ela jogue baldes de água suja pela janela da cozinha, lixo pela janela da sala, e assim vai. Às vezes o vento carrega a sujeira para dentro do meu apartamento, também. E eles instalaram um ar-condicionado recentemente, mas que vaza como eu nunca vi. Sempre que é ligado, ele faz jorrar uma torrente de água que inunda o pátio lá embaixo e ocasionamente minha sala, e parece que eles não ligam.
A filha é barulhenta. Muito. Como a maioria das meninas, ela gosta de se vestir com as roupas da mãe, especialmente os saltos e tamancos, e batê-los com violência no chão pra fazer aquele barulho. Quem mora embaixo deles? Poisé, e isso é, tiops, a tarde inteira. Às vezes, até de noite. Ela ainda é manhosa, grita, berra, xinga e faz o diabo a quatro. E o pai dela ainda reclamava que o meu irmão chorava muito quando era bebê. Há, tomou.

Hmm... té a próxima.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Academia... no inferno.

Certo dia ficou frio. Aquele frio ótimo pra ficar enrolado nos cobertores, comendo algo perigosamente calórico e vendo TV. Ainda mais uma segunda, dia de preguiça, de começo de semana, tempo de pegar no tranco. E foi nesse ritmo lerdo que faltei à academia que frequento.
Qual o problema? Nenhum, aparentemente. O mundo gira, as formigas trabalham, as estrelas realizam reações nucleares e pessoas faltam à academia. Mas essas pessoas não têm o pai que eu tenho. O cara simplesmente surtou, disse que sou um irresponsável e deixaria de pagar a mensalidade. O único jeito de evitar isso seria indo no dia seguinte.

O dia seguinte estava ainda mais frio. E escuro. E chovendo.

Não tenho roupas pra usar na academia em dias frios. Pode chamar de falta de compromisso ou vagabundagem, mas nunca me preocupei em comprar algo próprio para isso. Como resultado, pus minha costumeira bermuda, uma camisa de manga curta normalzinha e um agasalho por cima para tentar disfarçar o frio, mas é claro que falhei miseravelmente e sofri instantaneamente um choque térmico ao receber o vento. Meu fiel guarda-chuva mal conseguia enfrentar as rajadas de ar frio e a chuva que caía sem controle, a lama subia pelas calçadas, galhos eram arrancados de árvores e o céu estava de um cinza ameaçador. Grande.

De algum modo, consegui chegar vivo no meu destino. Claro que estava molhado até os ossos, mas esperava que o esforço logo me fizesse esquecer dos problemas, até mesmo do meu iPod novinho todo molhado. Tá, esse não deu pra esquecer, pelo menos não quebrou nada. O problema é que a academia estava fria pra dedéu e o instrutor ainda havia ligado os ventiladores com aqueles umidificadores. Feladamãe, passar o dia todo malhando é uma coisa, mas chegar e quase congelar é outra.
Sabe, uma das coisas que mais gosto quando vou malhar é sentir cada osso estalando na hora do alongamento. Você se sente motivado, cheio de energia, pronto pra levantar peso. Melhor ainda é nos primeiros exercícios, você estala e estica todo. Fala sério, isso é muito bom. Menos quando se estala além do limite, sendo que o frio te deixa estranhamente rígido e uma dor toma conta de pontos-chave, como panturrilha e pulso.

Salto no tempo. Peso caindo no pé, pequena discussão com um cara da minha altura mas o triplo da largura, chuva ficando cada vez mais forte lá fora, chave do armário perdida.

Depois de achar a chave e conseguir recuperar o celular e guarda-chuva, olho desanimado pela janela e noto a cortina branca de água que bloqueia minha vista. Não, eu não tenho catarata. Abro meu fiel parceiro e saio, pronto pro que der e vier.
CARALH*, FDP! Um carro passa em uma poça e joga água fria, barrenta e provavelmente cheia de leptospirose em cima de mim. Galões e galões de água desabam das nuvens impiedosamente, uma quantidade que só não assustaria o grande herói Leônidas Fontes. A curta caminhada de 500 metros até meu prédio tomou dimensões de um triatlo, como se eu estivesse fazendo a corrida e natação ao mesmo tempo.

Ao passar em frente à portaria, notei que o porteiro mal conseguiu conter o sorriso. Acho que nunca me molhei tanto, nem quando tomo banho ou entro em uma piscina. Fala sério, cheguei em casa em um estado deplorável, com a roupa encharcada totalmente grudada ao corpo, o cabelo chapado de tanta água e poças dentro dos tênis. Meu pai ainda teve a coragem de perguntar como tinha sido, ao que respondi "Tá frio lá fora". Espero que ele tenha entendido a mensagem.

Tudo isso serviu para me ensinar uma lição: Não deixe a preguiça te vencer, faça a coisa certa assim que puder Pode fazer a coisa errada, desde que ninguém fique sabendo.
Espero ter ensinado algo de valor hoje.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Falando sério

Hoje a coisa é um pouco mais sem graça. Acontece que estava escrevendo uma redação pro colégio ("Sustentabilidade: Um dever de todos) e senti uma grande dificuldade em não escrever certas coisas que pensei. Ainda bem que tenho este cantinho pra dizer o que quero. =P

Será que toda essa destruição causada pelo ser humano não seria, no fim das contas, benéfica? Uma espécie extremamente destrutiva começa a aloprar por aí e causar caos no planeta. O planeta sofre com isso, causando desastres naturais que levam a tal espécie à extinção, ou quase isso. Algumas pessoas sobrevivem e reiniciam a espécie humana, dessa vez com uma mentalidade diferente. Uma sociedade que não seja capitalista, que viva como os índios viviam originalmente. Sem reprodução descontrolada, avanço tecnológico exagerado ou destruição do meio ambiente. Vocês sabem que a natureza é perfeita e com certeza se recuperaria dessa peste chata.
Podem me chamar de fatalista, mas acho que a humanidade nunca vai se conscientizar do erro que está cometendo. Tenho certeza mais que absoluta que o aquecimento global não será controlado, as florestas vão sumir, espécies inteiras vão virar purpurina e tudo será destruído. Porém, lembrem-se que a Terra já passou por meteoros gigantescos, eras glaciais intensas e situações muito mais adversas que isso.
Fomos apenas uma experiência ousada que não deu certo. Nada mais justo que nosso criador nos jogar no lixo, seja a natureza, Deus ou quem você achar que seja.

domingo, 8 de março de 2009

Isso foi pra mim?

O Ressaca Moral fez um post falando sobre alguns tipos de blogueiros. Acho que esse Doda me conhece, veja só:

Eu, blogólatra
O primeiro post é uma justificativa que mal disfarça a auto-importância que o blogueiro acha possuir como uma estrela das relações sociais, geralmente começa com “ok, ok, após insistência dos amigos e muito relutar, decidi fazer esse negócio de blog, ainda não sei mexer direito nisso aqui, mas com o tempo eu aprendo, eheheheheh”. Achando que seu blog será um sucesso, o blogólatra decepciona-se ao perceber depois que é só mais um perdido no meio de uma multidão de outros sítios não muito diferentes do seu.


Imagino se não será o meu destino muito em breve.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O fusca fantasma

Esta história eu acho o máximo. Simplesmente marcou minha vida por uns 10 anos, sem brincadeira. Talvez você leia e diga "Tá, e daí?", mas pelo menos é bem diferente.

Vários anos atrás morava no meu prédio um amigão do meu pai, o Newton. Ele, desde que me lembro, sempre teve dois carros, um Corsa e um fusca. O Corsa, logicamente, ia pra garagem, enquanto o fusca velho ficava no estacionamento em frente ao prédio sempre no mesmo lugar: com uma roda em cima da rampa para deficientes subirem na calçada.
Além da óbvia mancada de bloquear a rampa, havia outro grande problema com o fusca vermelho: ele nunca era usado. Newton dificilmente era visto perto do carro, a não ser quando ia checar se ainda não tinha sido arrombado ou riscado (ah, como se alguém quisesse arrombar um fusca velhaço sem nada dentro.).
Pois bem, um dia Newton foi pra Goiânia com sua esposa. Ele já tinha vendido o Corsa e andava de Palio, as coisas mudam. O único porém foi que ele deixou o fusca aqui.

Isso aconteceu quando eu tinha uns 6/7 anos. Imagine a que alturas vai a imaginação dessa criança, criada à base de Pokémon e desenhos do Cartoon, quando vê um carro velho abandonado logo em frente ao prédio que mora. Eu realmente tinha medo do fusca, achava que fantasmas usavam o carro pra dar um rolê de madrugada e depois o largavam la de novo. Achava que tinha zumbis lá dentro, que criminosos usavam como depósito de corpos. Achava que o fusca era vivo e se recusara a ir com o dono para Goiânia, resolvendo ficar na vaga de sempre, com a roda em cima da rampa.
Dá pra imaginar que eu nunca nem chegava perto do carro, com medo que uma mão saísse do parabrisa e me puxasse lá pra dentro pra sempre.

E assim foi, todos esperando que um guincho chegasse e levasse o tal fusca, até porque era uma vaga desperdiçada, algo que fazia falta quando se chegava tarde da noite. Nada, porém, foi feito por vários anos. O fusca acabou virando parte da paisagem e até ponto de referência. "-Estou aqui no estacionamento! -Mas em que parte do estacionamento? -Do lado de um fusca caindo as pedaços. - Ah, beleza. Estou descendo."
Acho que não preciso dizer que o carro, tantos anos exposto a chuvas, sol escaldante, tentativa de roubos e idiotas que metem a cabeça no capô, ele foi ficando acabado. Aliás, acabado nem é a palavra certa. Ele ficou destruído, mesmo. A pintura vermelho-vinho ficou completamente lascada e desbotada, mal lembrando a cor original. Todos os pneus estavam carecas, faltando tiras e, desnecessário dizer, completamente murchos. As portas estavam amarradas com fios, duas janelas cobertas com papelão, a parte interna totalmente corroída por fungos e calor. O amassado no capô causado por uma cabeça em alta velocidade, feito antes mesmo de Newton ir embora, ainda estava lá.
Ele acabou virando um ícone do prédio, tão importante para o cenário quanto o pinheiro, o chafariz e as frôris no jardim. Em reuniões de condomínio já tinha virado uma piada recorrente dizer que "o fusca vai criar vida e ir embora sozinho". É, eles não têm muito o que discutir nessas reuniões, talvez o motivo para a obra no jardim ter começado no fim de 2007 e até hoje estar incompleta e congelada. Ops, desviei o assunto.

Enfim, um dia, no meio do ano passado, a rampa do estacionamento estava desobstruída, só com uma marca de pneu em cima. A vaga estava vazia. Nem sinal do amassado, das janelas quebradas, dos fungos, dos zumbis. Um guincho veio e roubou o fusquinha de nosso estacionamento. Logo a decoração mais conhecida entre os moradores, aquela que certamente deixaria um vazio se sumisse. E sumiu.
Pode parecer estranho todo esse sentimentalismo, afinal, era só um carro velho ocupando espaço que foi levado embora. O fato é que isso ocorreu em um período de mudanças, algo que realmente me afetou. Muitas pessoas que eu conhecia sumiram, muitos hábitos foram descartados, meu Super Nintendo quebrou, coisas se alteraram. Quase todo o vínculo restante que eu tinha com a infância estava perdido, todas aquelas coisas que eu via quando ainda era inocente estavam mudando. O sumiço do fusca foi algo inesperado, então me afetou de uma maneira diferente.

Ainda prefiro achar que os fantasmas resolveram viajar por aí com os fungos e logo vão voltar. Aquele carro, onde já me escondi para fugir de cachorros loucos, me apoiei pra aprender a andar de bicicleta, tirei fotos em cima dele só pra zoar, que foi arrombado incontáveis vezes mas os ladrões não acharam nada que prestasse.
Bem, foi divertido.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

128MB de memória, ou menos...

oie. Voltei com um post normal. Podem agradecer.

O post de hoje não é sobre informática, relaxem. A memória do título não é exatamente do computador, e sim a minha. Boa parte das pessoas sabe que, atualmente, 128MB de memória, m um computador, é uma quantidade ridícula que não serve nem pra usar o Word e entrar na Internet ao mesmo tempo. O que isso tem a ver comigo? Ah, bem...

Esta semana estive comentando com uns amigos sobre minha excepcional e infalível memória, e percebi que isso renderia um bom texto.
Comecemos: Dizem que nós, gênios, somos esquecidos e modestos. A primeira característica, no meu caso, se destaca muito mais que nos outros, infelizmente. Já me acostumei a viver 24h por dia com aquela sensação de "estou esquecendo alguma coisa", porque normalmente estou mesmo. E não pensem que isso é distração de adolescente, estresse de colégio, falta de tempo, nada disso. Isso vem desde os primórdios, mey. Veja só:

Luquinhas, com 6 anos, se preparando pra ir para a natação (esporte que odiava, odeia e sempre irá odiar, mas foi forçado a fazer por 14 anos). Roupão, ok. Touca, ok. Mochila pra pôr a roupa, ok. E ele vai. Sentado no banco do transporte, olha pra baixo e percebe que esqueceu de um detalhe, que talvez você tenha percebido. Aquela vestimenta de algodão branco com um desenho do Digimon definitivamente não parece uma sunga. Após uma inspeção mais detalhada, vê que de fato a peça de roupa é o que chamam de "cueca". O que fazer? Luquinhas, morrendo de vergonha, chega à academia e explica a situação pro professor, que ri e o deixa ficar sentado num banco esperando acabar a aula. Pelo menos estava passando Pokémon na TV.

Esse deve ser o caso de esquecimento mais antigo que consigo lembrar, mas provavelmente meus pais saibam de alguns ainda mais primitivos. Ainda bem que não lembro de tudo, pra falar a verdade, ou provavelmente seria ainda mais paranóico atualmente. Ou talvez fosse até melhor ser.

Luquinhas, agora com 8 anos, acaba de ter seu apartamento reformado, e uma das novidades é que agora seu quarto tem uma fechadura. Seus pais, aparentemente drogados, acham que o filho já é responsável o suficiente para poder ficar com a tal chave. Por que isso aconteceu, realmente nunca poderei explicar. O fato é que Luquinhas, logo na primeira noite com a chave, resolve se trancar para dormir, pois o dia seguinte seria um sábado e ele não queria ser acordado. Ele ainda assiste um pouco de desenho na TV e em seguida dorme.
Sábado, 9 horas da manhã. Nosso personagem principal acorda e puxa a maçaneta. Nada. Lembra que a porta está trancada e vai pegar a chave. Mas pegar aonde? Essa pergunta pergunta divide sua mente com "Nossa, o Ash pegou um Squirtle ontem de noite!", até Luquinhas perceber a gravidade da situação: ele está trancado no próprio quarto, uma representação de muito mal gosto daqueles joguinhos japoneses que você tem que arranjar um jeito de fugir de uma sala. Eu, particulamente, nunca consegui vencer nenhum desses jogos, então imagina na vida real. Pelo menos de fome não morreria, ainda tinha a lembrancinha de uma festa na escola, mas seu quarto não é uma suíte, e para chegar ao banheiro teria que derrubar a parede atrás do armário. Muito plausível para um moleque raquítico de 8 anos. Logo, sua última solução é o clássico "MAMÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃE! SOCORROOOOOOOOOO!", que traz resultados em segundos. Usando seus superpoderes de mãe, Carla logo se materializa em frente à porta trancada e avalia a situação.
A confusão chega a um novo nível. Como qualquer mulher em sã consciência que vê seu filho preso em um quarto morrendo de medo, começa a gritar com ele "CADÊ A CHAVE? ONDE VOCÊ PÔS?" calmamente desesperada, como se isso fosse adiantar algo. O pai do garoto acorda assustado e, com seu intelecto masculino superior, logo corre para o chaveiro no comércio da quadra.
Resumo da história: Luquinhas fica duas horas preso no próprio quarto, os pais gastam alguns dinheiros pra fazer uma cópia da fechadura, arrancá-la da porta recém-comprada e chamar um marceneiro pra consertar o estrago. Luquinhas, hoje com 16 anos, emo e com um blog depressivo, ainda não pode ficar com a chave do quarto.

Yay. Legal lembrar que o meu irmão hoje tem 8 anos e já tem até chave de casa pra emergências. Moleque maldito, sabe o nome, tipo, peso e altura de todos os 500 e tantos Pokémon mas não sabe se um tatu é réptil ou peixe. Vai ser nerd assim em cima de uma árvore.
O post está ficando bem grande, mas e daí? Não estou com muita vontade de parar.

Dois dias depois do incidente anterior, Luquinhas ainda tinha a chave das gavetas de sua escrivaninha. Cansado de perder o controle remoto de sua TV, resolve guardá-lo em uma gaveta e trancá-la para que não mais o perdesse. Controle de TV tinha que ser que nem telefone sem fio, se você perder é só apertar um botão na base que ele apita onde quer que esteja, seja no banheiro, debaixo da cama ou no quarto da empregada que aumenta a conta em 200 reais só de ligação pro Piauí.
Pois é, o garoto coloca o controle na gaveta de material da escola e a tranca. Ele não vê TV naquele dia, mas a noite chega e o dia seguinte será uma terça. Ele vai abrir a gaveta de material escolar pra pegar lápis de cor... e ela não abre. Após tirar da cabeça o pensamento de ela estar sendo segurada por um fantasma brincalhão, ele lembra da chave. Só lembra, porque achar mesmo, ele não acha. Cortando um pedaço da história (que envolvia a mãe dando uma bronca lendária no garoto e proibindo-o de usar o computador por um mês [e claro que ele o usou todos os dias que deu vontade], o pai dando um chilique pior ainda e proibindo-o de ver TV [que ele assistiu todos os dias que deu vontade], mais um chaveiro chamado no dia seguinte, um recado na agenda mandado pela professora dizendo que ele estava sem lápis de cor, etc etc etc), chegamos ao improvável desfecho: hoje, Luquinhas tem 16 anos, é emo, gostoso, tem um blog depressivo e não tem mais fechaduras no móvel do quarto, muito menos nos armários.

Outra coisa foi quando fui pagar algo que precisava levar o contrato de serviço, faz uns dois anos. Estava na porta de casa, lembrei que estava sem o contrato. Quase no elevador, voltei pra pegar o celular. Quase pisando fora de casa, agasalho. Chegando à loja (no comércio da quadra), tinha esquecido apenas o dinheiro.

Ah, e esses dias esqueci o celular na academia e ele evaporou. Era um Nokia 2610 de 2004, que tinha custado 90 reais. Tela totalmente arranhada, teclado com algumas teclas soltas, sem câmera, caía em ligações muito frequentemente e era bloqueado com um chip pré-pago da Vivo que vivia sem crédito. Imagino o tipo de pessoa que roubaria um celular desses. Engraçado que eu tinha escolhido um bem vagabundo especificamente porque sabia que um dia, inevitalmente, iria perder o maldito. Por isso nem me arrisco a comprar um iPhone ou qualquer modelo mais caro que 200 reais. (Ah, já tentei ligar infinitas vezes para o número, mas ele está sempre fora de área. Devem ter sido alienígenas)

Baseado nesses casos, tente calcular quantas vezes fui a festas de aniversário sem presente, cinema sem carteira de estudante, judô sem kimono mas com a faixa na mão (essa foi muito foda)... Pra mim, a melhor invenção da informática foi quando o browser de Internet passou a completar a senha de sites automaticamente. Minha conta no Windows tem uma senha, que esqueço quase todo mês. Pelo menos aí tem solução, que é usar a conta admin e resetar a senha.
Também sou uma desgraça pra decorar aniversários. Sei que o meu é 15 de agosto, meu irmão é 30 de março... Acho que minha mãe faz entre 18 e 23 de janeiro, não tenho a menor idéia de quando meu pai faz aniversário, sei o aniversário do meu tio Alexandre porque eu nasci no mesmo dia do ano que ele. Fora isso, não sei nada. De ninguém. Mas também tenho umas datas largadas pelo meu cérebro, como 7 de agosto, algum dia entre 22 e 25 de maio...
Mesma coisa com endereços, números de telefone, senhas de cartão, nomes científicos e qualquer outra coisa que exija ser decorada.

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BÔNUS

Já me perguntaram onde adquiri esse estilo irônico de escrita. Fui fortemente influenciado (e até inspirado, por assim dizer) pela série "O Mochileiro das Galáxias", a trilogia composta por "O Guia do Mochileiro das Galáxias", "O Restaurante no Fim do Universo", "A Vida, O Universo e Tudo Mais" e "Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes!", além do spin-off "Praticamente Inofensiva". Não, eu não contei errado. Essa é uma trilogia escrita por Douglas Adams.
Recomendo a todos que queiram ler uma série altamente nonsense, com humor irônico inteligentíssimo e muitas reflexões sobre a vida, o universo e tudo mais.
(E por que gente que presta morre cedo? Douglas Adams faleceu em 2001 só com 49 anos, ainda planejando lançar mais um livro da série iniciada em 1979...)