sábado, 28 de fevereiro de 2009

O fusca fantasma

Esta história eu acho o máximo. Simplesmente marcou minha vida por uns 10 anos, sem brincadeira. Talvez você leia e diga "Tá, e daí?", mas pelo menos é bem diferente.

Vários anos atrás morava no meu prédio um amigão do meu pai, o Newton. Ele, desde que me lembro, sempre teve dois carros, um Corsa e um fusca. O Corsa, logicamente, ia pra garagem, enquanto o fusca velho ficava no estacionamento em frente ao prédio sempre no mesmo lugar: com uma roda em cima da rampa para deficientes subirem na calçada.
Além da óbvia mancada de bloquear a rampa, havia outro grande problema com o fusca vermelho: ele nunca era usado. Newton dificilmente era visto perto do carro, a não ser quando ia checar se ainda não tinha sido arrombado ou riscado (ah, como se alguém quisesse arrombar um fusca velhaço sem nada dentro.).
Pois bem, um dia Newton foi pra Goiânia com sua esposa. Ele já tinha vendido o Corsa e andava de Palio, as coisas mudam. O único porém foi que ele deixou o fusca aqui.

Isso aconteceu quando eu tinha uns 6/7 anos. Imagine a que alturas vai a imaginação dessa criança, criada à base de Pokémon e desenhos do Cartoon, quando vê um carro velho abandonado logo em frente ao prédio que mora. Eu realmente tinha medo do fusca, achava que fantasmas usavam o carro pra dar um rolê de madrugada e depois o largavam la de novo. Achava que tinha zumbis lá dentro, que criminosos usavam como depósito de corpos. Achava que o fusca era vivo e se recusara a ir com o dono para Goiânia, resolvendo ficar na vaga de sempre, com a roda em cima da rampa.
Dá pra imaginar que eu nunca nem chegava perto do carro, com medo que uma mão saísse do parabrisa e me puxasse lá pra dentro pra sempre.

E assim foi, todos esperando que um guincho chegasse e levasse o tal fusca, até porque era uma vaga desperdiçada, algo que fazia falta quando se chegava tarde da noite. Nada, porém, foi feito por vários anos. O fusca acabou virando parte da paisagem e até ponto de referência. "-Estou aqui no estacionamento! -Mas em que parte do estacionamento? -Do lado de um fusca caindo as pedaços. - Ah, beleza. Estou descendo."
Acho que não preciso dizer que o carro, tantos anos exposto a chuvas, sol escaldante, tentativa de roubos e idiotas que metem a cabeça no capô, ele foi ficando acabado. Aliás, acabado nem é a palavra certa. Ele ficou destruído, mesmo. A pintura vermelho-vinho ficou completamente lascada e desbotada, mal lembrando a cor original. Todos os pneus estavam carecas, faltando tiras e, desnecessário dizer, completamente murchos. As portas estavam amarradas com fios, duas janelas cobertas com papelão, a parte interna totalmente corroída por fungos e calor. O amassado no capô causado por uma cabeça em alta velocidade, feito antes mesmo de Newton ir embora, ainda estava lá.
Ele acabou virando um ícone do prédio, tão importante para o cenário quanto o pinheiro, o chafariz e as frôris no jardim. Em reuniões de condomínio já tinha virado uma piada recorrente dizer que "o fusca vai criar vida e ir embora sozinho". É, eles não têm muito o que discutir nessas reuniões, talvez o motivo para a obra no jardim ter começado no fim de 2007 e até hoje estar incompleta e congelada. Ops, desviei o assunto.

Enfim, um dia, no meio do ano passado, a rampa do estacionamento estava desobstruída, só com uma marca de pneu em cima. A vaga estava vazia. Nem sinal do amassado, das janelas quebradas, dos fungos, dos zumbis. Um guincho veio e roubou o fusquinha de nosso estacionamento. Logo a decoração mais conhecida entre os moradores, aquela que certamente deixaria um vazio se sumisse. E sumiu.
Pode parecer estranho todo esse sentimentalismo, afinal, era só um carro velho ocupando espaço que foi levado embora. O fato é que isso ocorreu em um período de mudanças, algo que realmente me afetou. Muitas pessoas que eu conhecia sumiram, muitos hábitos foram descartados, meu Super Nintendo quebrou, coisas se alteraram. Quase todo o vínculo restante que eu tinha com a infância estava perdido, todas aquelas coisas que eu via quando ainda era inocente estavam mudando. O sumiço do fusca foi algo inesperado, então me afetou de uma maneira diferente.

Ainda prefiro achar que os fantasmas resolveram viajar por aí com os fungos e logo vão voltar. Aquele carro, onde já me escondi para fugir de cachorros loucos, me apoiei pra aprender a andar de bicicleta, tirei fotos em cima dele só pra zoar, que foi arrombado incontáveis vezes mas os ladrões não acharam nada que prestasse.
Bem, foi divertido.

6 comentários:

  1. Você disse que tem fotos em cima do fusca fantasma. Quero ver! :D

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  2. Gostei da história, ela é simples e simpática =D

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  3. Pois é, as coisas se vão. Inclusive e especialmete a infância e a inocência. Deu um nostalgia lendo seu texto...

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  4. :') que-lindo!
    vc escreve muito, eu disse MUITO bem!

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  5. Gostei, eu entendo essas "mudanças". Sinto muita falta de como era minha mente na infância... É muito bom quando tudo é novo e a gente ainda não sabe das coisas.

    Mas enfim, eu gostei da historia.

    Sou Paranaense de 19 anos que lê de tudo na net!

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